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Friday, November 03, 2006
Realidades e Paradoxos
Tam Huyen Van – Novembro, 2006 – Ano buddhista de 2549
Sempre procurei evitar o erro crasso de negar as realidades. Negar realidades é um procedimento relativamente comum, principalmente se observamos quão facilmente tendemos a interpretar o mundo sob o prisma de nossas próprias concepções. O que exatamente quero dizer com a idéia de "negar realidades"? Com isso desejo chamar a atenção para o processo de interpretação parcial – e portanto não-integrativa – do que está ocorrendo à nossa volta, das circunstâncias que nos cercam, das palavras que ouvimos e falamos, dos sentimentos que experimentamos, dos gestos, rostos, cores e formas que vemos. Quando vivemos estas sensações, estamos quase sempre vivendo a parte delas que corrobora nossas próprias interpretações – seja para o melhor ou pior. E quando vivemos desta maneira tão compartimentada, estamos automaticamente negando as outras realidades possíveis e perdendo a chance de superar os conflitos e viver bem melhor. Notem bem, não afirmo que a parcialidade de nossa visão de mundo seja feita deliberadamente ou de forma capciosa por todos nós, todo o tempo. Ou que ela não tenha nenhuma utilidade - se feita com extrema dose de discernimento - como organizadora de nossas atitudes. Apenas percebo que tal atitude é constante no comportamento humano usual, fazendo parte de uma característica essencialmente frustrante e insalubre de nossa natureza, pois ao negar realidades estamos abrindo um amplo campo para situações críticas, preconceituosas, angustiantes, odiosas, confusas e repressoras em nós mesmos e em todos à nossa volta.
Qual é a realidade – dentre tantas – que nos toca? Não será aquela alheia às nossas expectativas, com certeza. Entretanto, o próprio conceito de realidade precisa ser analisado com cuidado pois, afinal, ele é muito relativo. As realidades são, essencialmente, um fenômeno de referência. Eis uma difícil descoberta para o indivíduo, saber que subjacente à sua idéia de realidade existe apenas um complexo sistema de preferências, de relações interpretativas ricas em possibilidades mas pobres em visão expansiva, em compreensão profunda. Mesmo a experiência de realidade concreta, como tocar em uma mesa ou sentir o gosto de um sorvete, dependem completamente de nossa interpretação e preferências. É uma experiência difícil, realmente, perceber que aquilo que acreditamos não é mais (nem menos) do que uma versão de tudo o que está acontecendo. Ao mesmo tempo, estar pronto para perceber realidades não significa corroborá-las todas, ou aceitar passivamente as várias loucuras humanas fundamentadas em realidades parciais; o exercício de observação das realidades tem a ver com o desenvolvimento de nossa capacidade de entender o mundo, de expandir nossa percepção de forma a abranger aquela parte da vida que não passa pelos nossos desejos pessoais, mas que ainda assim existem.
Ao negar realidades estamos tentando alijar do mundo aquela parcela de experiências que não nos agrada, com a qual não concordamos, provavelmente porque elas foram feitas por pessoas ou instituições sobre as quais temos grande resistência, discordância fundamental ou talvez um profundo desconhecimento. Mas o ato de negar não é a melhor forma de expurgar de nossas vidas tudo o que consideramos nefasto. Recusar realidades não as torna menos existentes (ou mais erradas), apenas provoca em nós uma miopia perceptiva que a médio prazo irá nos deixar vulneráveis a grandes frustrações, nos mergulhando em uma terrível ignorância. As realidades, além de relativas, também são artificiais. O artificialismo das várias visões de mundo não denuncia sua irrealidade, apenas indica o quanto cada realidade depende estritamente de seu espectro de influência, e está restrita aos limites de seus elementos constituintes. Justamente por serem artificiais, devemos buscar entendê-las plenamente e assim aprender a reconhecer os limites de sua pertinência.
E aqui temos o primeiro de vários paradoxos existenciais que precisam ser resolvidos de uma forma amadurecida e clara: as realidades existem apenas no estrito limite de sua influência; fora dele, elas perdem sua consistência e tornam-se mitos, opiniões ou simples fantasias. Mas ainda assim o universo se fundamenta justamente nesta miríade de realidades possíveis, e elas pertencem ao complexo existencial do mundo – mesmo que você talvez não creia nelas. Uma vez que a humanidade sofre com sua ignorância perceptiva, é claro que as realidades humanas distorcem o que pretendem representar como o real. E aqui vamos para outro paradoxo: as realidades não são o real. Elas apenas são frutos da assustadora diversidade psico-emocional humana, e representam um dos aspectos mais intensos do grau de fragmentação que a consciência humana ainda vive.
Creio que neste momento todos já perceberam que estou usando o termo "realidades" para representar o modo através do qual a mente humana interpreta o mundo. Não falo de outros planos dimensionais ou mundos sobrenaturais como realidades estabelecidas. Ou antes, de certa maneira enfoco também estas questões, mas estritamente sob o prisma da percepção, através da qual toda e qualquer experiência, idéia ou pensamento ocorre. O conceito de Maya, comum na tradição hindu (e oriental como um todo), pretende esclarecer exatamente o fato de que nenhuma forma de experiência existencial possui uma realidade absoluta. Assim, seja qual for a aparência de realidade em que vivemos, ela será sempre relativa e construída a partir das interpretações de todos aqueles que a corroboram. Realidades e paradoxos convivem juntos em nossas vidas, todo o tempo. Somos criaturas que interpretam o mundo de forma parcial, mas que ao mesmo tempo imaginam entende-lo completamente. Uma grande lição prática que eu me atrevo a sugerir para todos é saber observar melhor os paradoxos em suas vidas. Os paradoxos existenciais não são de modo algum destituídos de sentido, eles são justamente os meios pelos quais as verdades universais são apresentadas à nossa consciência.
O Koan, o paradoxo, é o meio pelo qual a linguagem da existência torna-se um pouco mais inteligível pelo Homem. Na verdade, a vida não é absurda nem caótica. O Koan, na qualidade de sinônimo do paradoxo, na verdade nos propõe apenas um desafio: você é capaz de ver além de sua realidade, de sua idéia de mundo? Na tradição zen, o koan é uma fórmula absurda, uma questão paradoxal, apresentada a nós pelo mestre (ou pela vida, não importa) para que possamos respondê-la. Esta prática milenar possui uma força simbólica valiosíssima, pois ela visa nos mostrar como os paradoxos são o fundamento do conceito de ilusão mental, que por sua vez nos faz perceber o mundo sob a ótica de diferentes realidades. Quando logramos resolver o enigma do Koan, uma explosão silenciosa acontece em nossa alma. As respostas aparecem quase sem nenhuma elaboração maior além da própria conclusão de que o mundo é feito de interpretações várias, e as respostas estão por aí, prontas para serem descobertas por qualquer um.
A beleza do paradoxo, como fenômeno tipicamente associado à linguagem do mundo, é que ele provoca a nossa mente, e nos retira a ilusão de que estamos no controle da realidade e dos fatos. Existe um koan Zen muito característico desta situação. Ele fala de um homem caminhando pela estrada, e que vê surgir à sua frente um outro homem montado em um cavalo sem rédeas e em desabalada carreira. Cavalo e homem passam como um raio pelo andarilho que, alarmado, pergunta ao cavaleiro: "Para onde você está indo desta maneira louca?", ao quê o homem sobre o cavalo responde: "Não sei, pergunte ao cavalo!"
Mas a simples provocação que os paradoxos fomentam não é suficiente, claro, para que nossa compreensão do mundo de amplie e transforme; faz-se necessário que saibamos observar a vida com olhos mais atentos às respostas que nos são propostas a todo o tempo e através de cada aspecto surpreendente e relativo das circunstâncias. Portanto, a melhor maneira de apreendermos os aspectos mais valiosos da existência seria agir com mais abertura mental diante da vida. Mais paciência, mais concentração, mais simplicidade. Estas são atitudes difíceis, eu sei. Elas são ainda mais difíceis nestes tempos, quando estamos cada vez menos interessados em ouvir e aprender, e mais dispostos a desafiar o mundo. Mas o desafio real não nos pertence, não somos nós que realmente desafiamos a existência com as nossas posturas sociais, políticas ou religiosas, nossas modas e maneiras, nossas loucuras, nossa arrogante certeza de tudo. O desafio nos espreita nas sombras de nossos atos, preparando-nos uma lição definitiva.
Aquilo que realmente irá nos permitir crescer como indivíduos tem a ver com o processo de integração daquelas realidades sob o prisma de uma prática reflexiva direta, sem vícios intelectuais ou místicos. Para que possamos alcançar sabedoria e esclarecimento, é fundamental que possamos viver livres de qualquer parcialidade, qualquer vício de diferenciação. Eis uma atitude ousada, e que é bastante desacreditada pela maioria das pessoas uma vez que para muitos não há como evitar o dualismo das atitudes diferenciadoras, sem com isso corrermos o risco de destruir nossa capacidade de viver coerentemente. Mas este receio não tem sentido; a proposta não é evitar o dualismo, mas sim livrar-se de seu domínio, atingindo o conceito de Mente Única.
O supremo koan, o grande paradoxo, é que as realidades são feitas de Vazio (Wu). Elas não definem a vida, não nos fazem mais sábios, não fundamentam nosso crescimento humano. As nossas visões sobre a realidade são apenas aspectos de um grande espectro de potencialidades da consciência (no buddhismo, o Alayavijñana), uma grande cadeia de nascimento/amadurecimento/morte de concepções (o fenômeno do Samsara em sua condição mais básica).
Onde está a sua mente? Eis um importante koan. Saiba como responder a esta questão, e quando isso acontecer realidades e paradoxos deixarão de pertencer ao campo das falsas certezas. Quando aprendemos a viver além da realidade imediata que mais nos agrada, atingimos a meta mais saudável do Caminho: a liberdade incondicional da mente única, sem parcialidades, sem faces.
Nem água, nem lua: para além de seu falso reflexo nas águas e de sua concretude no céu, a lua na verdade é apenas um vazio iluminando a noite.
Pu Ti Da Mo (Bodhidharma)

Arte Zen: Pu Ti Da Mo (Bodhidharma)
Wednesday, October 25, 2006
A Arte Desconstruída
- considerações sobre o ‘estado de arte’ da mente criativa –
Tam Huyen Van – Outubro, 2006
Um mestre em ShuFa (arte caligráfica chinesa) escreveu alguns ideogramas em uma folha de papel. Um dos seus mais especialmente sensíveis estudantes estava observando. Quando o artista terminou, ele perguntou a opinião do seu pupilo - que imediatamente lhe disse que não estava bom. O mestre tentou novamente, mas o estudante criticou também o novo trabalho. Várias vezes, o mestre cuidadosamente redesenhou os mesmos ideogramas criando uma nova obra, e a cada vez seu estudante rejeitava a criação de arte.
Então, quando o estudante estava com sua atenção desviada por outra coisa e não estava olhando, o mestre aproveitou o momento e rapidamente destruir a folha na qual havia escrito seu último trabalho, deixando uma simples folha em branco no lugar.
"Veja! O que acha?" Ele perguntou. O estudante virou-se e olhou atentamente.
"ESTA é verdadeiramente uma perfeita obra de arte!", exclamou.
Como manifestação sensível, o processo contemplativo zen oferece uma grande margem de experiências íntimas em relação às quais, quase invariavelmente, o indivíduo percebe-se mais essencialmente integrado em relação ao universo conceitual e concreto, em um processo cuja natureza direta e ao mesmo tempo inconstantemente renovadora permite-nos atingir descobertas fundamentais – e maravilhosamente criativas – sobre a natureza da existência. Eis porque a cultura zen-buddhista foi capaz de desenvolver, sobretudo no Japão, uma sofisticada abordagem artística em vários níveis. O conceito contemplativo Zen, tanto em sua condição prática ou como em sua natureza teórica, se inicia conflitante e difícil de abordar, mas em determinado momento abre-se completamente e permite à mente libertar-se de si – uma imagem já exaustivamente discutida por mim em vários outros momentos. Contudo, durante o processo de conflito – e mesmo depois – devemos observar que a experiência de "ver" torna-se crucial para o indivíduo. Portanto, podemos começar esse ensaio sobre a questão da criação de arte – e ao mesmo tempo sobre o que chamo de estado de arte na vida – questionando: o quê é o olhar?
Pensadores existenciais, pós-modernos ou contemporâneos, abordam o fenômeno do olhar e do objeto a ser olhado sob a luz de várias propostas. Algumas são muito interessantes, e contribuem para que possamos apreender melhor o sentido desta experiência. É claro que a visão moderna ou pós-moderna do conceito enfoca quase que especificamente o olhar sob a perspectiva representacional pura. As suas elucubrações visam evidenciar as angústias da relação homem-objeto (ou talvez fosse melhor dizer ser-e-forma). A indagação filosófica ocidental visa elucidar, se jamais for possível, o pasmo diante do fenômeno de olhar e ser olhado. Quem é esse que observa, e como isso afeta aquilo que é observado? Indo mais além, o quê por sua vez irá nos retornar o objeto que sofre o escrutínio de nosso olhar? São questões existenciais complexas, talvez, mas ainda assim pertinentes. Contudo, a grande distinção entre as propostas filosóficas orientais e ocidentais está no grau de vivência de cada uma com o conceito da contemplação. O comprometimento do pensamento ocidental é com o desarvoramento, a alienação, as respostas que o olhar provoca. O indivíduo, ao contemplar, torna-se "algo" distante de sua realidade imediata, e momentaneamente esquece de si mesmo para torna-se outra coisa; o objeto observado também nos retorna um escrutínio que pode igualmente nos objetificar, e tal poder pode ser fonte de grandes angústias para o observador.
Na proposta oriental, o olhar torna-se um canal de relação com a ausência do "eu"; quanto mais contemplativamente colocamos nosso olhar sobre um objeto, mais iremos exercitar nossa capacidade de transcender o que é objetivo e concreto. O olhar, no âmbito da consciência, não é mecânico nem físico. Na verdade, a concepção buddhista apresenta as realidades como absolutamente desprovidas de conteúdo específico, e somente desta forma as coisas poderão existir: não existindo e existindo ao mesmo tempo. Como afirma o Prajnapamita Hrdaya Sutra, "não existem olhos, nem [o sentido da] visão" – e por conseqüência, nem mesmo o objeto a ser olhado. O que subjaz a ação de ver seria o pleno fluxo de integração do sujeito com as realidades possíveis, e suas nuances relativas; o sujeito deve perceber que aquilo que ele sente não é, por mais que pareça o contrário, definitiva e absolutamente concreto. As coisas vistas são o que elas são, e mais nada. Sendo assim, o ato de olhar representa mais do que ver a partir de uma idéia, uma significação do que é visto; olhar representa uma aprendizagem de contemplação mais ampla do que é visto – uma metasignificação do objeto observado. Esta prática é bem mais delicada do que aquela interação angustiante entre o ser e a forma proposta por alguns pensadores modernos.
Claro está que a abordagem filosófica oriental preocupa-se com o olhar relativo e quase indeterminado, o olhar criativo e sensível ao extremo. A proposta ocidental em alguns casos (Sartre, Bataille, Focault, Lacan, etc.) aborda esta sensibilidade como contraponto às angústias do ser concreto, e tanto as linguagens como os significados sempre serão usados como ferramentas de relação entre vários aspectos psicológicos inerentes ao homem moderno – sua culpa, seu desejo, sua ânsia em devorar o outro através de seus sentidos – e o grande pasmo diante do incognoscível. Derrida considera que o olhar artístico leva o próprio artista à sua ruína, pois ao ver algo, o artista o faz por apenas alguns segundos e depois resta apenas a memória do visto. Assim, segundo Derrida o artista é incapaz de recapturar a presença do olhar original, a essência do que foi visto. Ora, o mesmo poderia ser dito de todas as pessoas que, por um motivo ou outro, passam pela vida olhando aquilo que lhes importa – e enxergando apenas o espectro de sua memória interpretativa.
Desta forma, a proposta da Mente Ocidental (se é podemos realmente diferenciar assim a mente humana; na verdade esta distinção é bem mais íntima do que geográfica) é de apresentar o olhar como forma de um processo fluido do binômio sujeito/objeto, para assim revelar sua real natureza – se é que ela existe. A Mente Oriental visa experimentar a percepção intuitiva do não-olhar, e exercer nesta ação todo o potencial de relativização que a nossa sensibilidade pode ter. Pessoalmente, acho que na arte falta uma experimentação definitiva do olhar intuitivo, sob uma ótica prática semelhante a zen-buddhista e/ou oriental. Movimentos artísticos já exploraram o tema e vários artistas manifestam sua simpatia a estas posturas, evidentemente, mas nenhum deles interessou-se em mergulhar além dos conceitos teóricos, da atraente (para o intelecto) poética não-convencional que estas abordagens espirituais oferecem.
Modernos, Vanguardas e Contemporâneos flertaram - e ainda flertam - consciente ou inconscientemente com verdades já anteriormente intuídas pelas filosofias liberacionistas e não-duais nascidas nas culturas do oriente. Todos estes movimentos lograram obter resultados válidos para a expressão de arte humana, mas nenhum – absolutamente nenhum – jamais conseguiu superar o pasmo e o completo anuviamento mental humano que a ignorância de si mesmo provoca. Honestamente, eles jamais pretenderam fazer isso. A Arte falha ao não resgatar o Ser de seu pasmo? Existem aqueles que afirmam não ser do escopo da arte resgatar coisa alguma. Mas essa postura é, no mínimo, covarde; a arte, como qualquer outra manifestação humana, não pode fugir de sua influência – não há como ela evitar os resultados, e ser apenas um vácuo egoisticamente auto-suficiente. Portanto, a arte falha quando não revela sabedorias. Digo isso porque considero a arte como uma grande manifestação do Ser. Ela não é uma coadjuvante nos assuntos do espírito humano (não, eu não pretendo mistificar a arte, antes quero torná-la uma senda válida para o crescimento da consciência do Homem).
Talvez aquele caráter falho da arte ocorra não à luz da criação em si (a obra é sempre inspiradora de insights), mas no âmbito do próprio artista e sua humanidade. Quando exercita sua função, o artista reproduz uma arte conceitualmente válida, dando uma aparente saciedade à questão comum no meio crítico e filosófico da arte, a saber: o quê faz o artista? Mas a questão é outra, completamente distinta desta. A questão crucial é: o que sabe o artista de si mesmo? A dimensão individual daquele que faz arte não se coaduna (necessariamente) com a proposta artística em si, apesar desta ser constantemente descrita como fruto da ação do profissional de arte. O artista, na verdade, ainda está restrito à sua dimensão humana comum. Mas há muito mais na arte, além dos simples embates sobre a pertinência da obra realizada à luz das opiniões críticas ou históricas.
A Arte é vida? Costuma-se dizer que a prática espiritual oriental é uma forma de arte, onde o indivíduo aprende a olhar o mundo de uma maneira ampla e despojada. Mas o que isto realmente significa? Afinal, não são poucas as pessoas que se atraem pela proposta agradável e bonita de viver uma vida o ideal de uma espécie de "arte transcendente" seja expresso por meio de amor e carinho, paz e harmonia, fraternidade e diálogo. Contudo, sem hipocrisias, pouquíssimos foram capazes de atingir esta proposição apesar de todo o colorido e beleza das palavras. E estes poucos, com certeza não são contados entre as legiões de entusiasmados místicos ou crentes de vários escopos, antigos ou modernos. Nem mesmo entre os intelectuais e rígidos praticantes das variadas doutrinas existenciais, quaisquer que sejam. Existe uma mescla de sensibilidade e sobriedade que são imprescindíveis para que possamos crescer no universo consciencial humano – e também na arte.
A capacidade zen em perceber a sutileza da ação artística tem a ver com sua força, na qualidade de prática contemplativa, em compreender o sentido do conceito – essencialmente Taoísta em sua origem – de não-fazer (Wu Wei) subjacente às mais saudáveis e corretas formas de atuação na vida. O zen reconhece há centenas de anos que o indivíduo pode tornar-se capaz de exercer em sua vida o dom de sutileza e equilíbrio típicos do processo de criação na arte, mas não será capaz de transformar a vida em arte. Neste sentido, a proposta contemplativa não define a Arte (como instituição criadora de obras, movimentos ou conceitos artísticos) como sinônima das coisas que constituem a nossa vida. Não há "arte" em tomar água ou caminhar na calçada em direção à sua casa. Mas há "arte" em fazer tais coisas com a mente fluida e em plena atenção, retirando do ato banal aquilo que ele tem de metasignificado, retirando de sua concretude uma essência que, apesar de ser relativa (ou justamente por causa disso) é rica em descobertas – desta maneira aprendendo a discernir melhor as contradições e banalidades do mundo, e com isso crescendo em sua humanidade. A grande arte é feita justamente neste momento.
Uma qualidade fundamental no olhar criativo de um homem ou mulher é aquela que permite sutilizar o que se vê, sente, cheira, toca, ouve. O olhar criativo extrapola os olhos e a visão; ele acontece em todo o corpo. Sabe aquela sensação agradável quando sentimos uma brisa ou o calor do sol, e fechamos os olhos para assim poder absorver melhor o prazer suave e refrescante desta experiência? Neste momento, quase sem querer, estamos olhando para tudo sem ao menos utilizar os olhos. É uma sensação ampla, como um leve toque em nossa consciência. Exemplos como esse podem ocorrer muitas vezes em nossas vidas, mesmo entre aquelas pessoas mais desesperadas e em grande sofrimento. Esse é o processo do olhar acontecendo de forma tipicamente criativa e sensível, e que poderia abrir uma porta fundamental para que nossa experiência interpretativa atingisse novas fronteiras de sabedoria e percepção – e cura de muitas misérias pessoais. A imagem comum na tradição zen para este fenômeno é a do "portal sem porta", pois ele na verdade sempre está aberto e disponível para que possamos atravessá-lo. Precisamos apenas vê-lo à nossa frente, e dar o passo crucial em sua direção.
E, no entanto, entre o momento em que sentimos a brisa e o ato do fechar os olhos para melhor experimentá-la (a dizer, contemplá-la) nada realmente portentoso ocorreu, exceto uma grande abertura de possibilidades. A questão é: saberemos aproveitar esta possibilidade a nosso favor? Quase sempre não; ela vem e passa, deixamos no máximo uma doce lembrança de um momento prazeroso. Na vida comum, infelizmente damos mais valor (e realidade) aos fatos irrelevantes e banais ou às nossas próprias misérias pessoais do que aos momentos de libertação e sutil transformação de nossos espíritos, estes quase sempre considerados um sonho impalpável, sem nenhum valor prático. No campo das artes, estes momentos de insight frequentemente tornam-se meios para criar a obra, mas o fluxo de ação criativo rapidamente deixa o campo da sensação direta para cair no limitado âmbito da memória (a dizer, do intelecto). Este processo, usando a abordagem de Derrida, leva o artista à "ruína", com isso significando que ele apenas realiza algo limitado, talvez até pequeno. Há mais no processo, e eu defendo que o artista deva lançar-se à busca pelo dom de sustentar seus momentos íntimos de sensibilidade, sem permiti-los cair no lugar-comum das memórias mortas, e assumir tal busca com apetite para crescer em sua própria condição humana, e não simplesmente para crescer em sua arte.
Mas os artistas são pessoas comuns, possuem histórias diversas e objetivam fazer arte por muitos motivos; eles são, sem nenhuma diferença, iguais em natureza aos outros homens e mulheres que, ao longo da vida, simplesmente irão dizer: "eu não quero buscar coisa alguma, desejo apenas realizar meus anseios pessoais, ter algum dinheiro, criar meus filhos, alcançar prazeres, ou um emprego que me ofereça sucesso." O aparente despojamento de objetivos mais profundos de todos nós mascara a profunda relutância que temos em encarar a vida sob a luz de um processo constante de reflexão e consciência, pois mesmo que a maioria das pessoas não saiba – ou não queira saber – da implacabilidade dos atos impermanentes e inconstantes, elas não podem deixar de intuir a sua realidade. Eis porque, quanto mais sensível e atento for o homem, mais ele mergulha nas angústias do Ser – ou como diagnosticou Buddha, mais ele percebe em sua vida o sofrimento causado por sua ignorância.
De fato, somos criaturas profundas e sensíveis, mas ainda não aprendemos a equilibrar nosso potencial perceptivo e sensório com uma atitude mais amadurecida por descobertas internas realmente saudáveis. A evolução da consciência humana ainda está em sua fase inicial. E a maioria da humanidade sofre demais com suas necessidades imediatas para prestar atenção a este potencial. Contudo, apesar da premência por abrigo, alimento e perspectivas sociais, a humanidade possui uma necessidade ainda maior de amor, discernimento correto e maturidade reflexiva. A ironia é que quanto mais formos capazes de aprimorar nossa percepção íntima (tida como uma meta complexa e filosófica demais), mais seremos capazes de solucionar justamente as terríveis necessidades básicas que conduzem a tanto sofrimento humano, e que tanto assombram nossas mentes. A ignorância é fruto das carências do Ser, não apenas das privações físicas ou intelectuais.
Quando a Arte desfaz-se em suas várias partes, podemos discernir melhor o quanto a vida pode ser um campo fértil para as manifestações criativas do Ser. Sim, tenho convicção de que o objetivo da arte e da filosofia é levar o Homem a um crescimento perceptivo, fundamentado na perspectiva metaconceitual característica da experiência perceptiva essencial e não-dualista. Não acho que as afirmações de que não há nada a descobrir na arte ou filosofia sejam válidas, exceto nos universos opinativos específicos destas declarações – ou mais honestamente, de seus próprios autores. Podemos construir várias abordagens sobre os limites da Linguagem e do Pensamento, mas todas as abordagens, desde as puramente analíticas, passando pelas científicas e chegando até as religiosas, serão válidas exclusivamente em seus limites de alcance. Subjacentes a todas elas ainda permanecem as ações do Homem – as ações puras, despojadas de conceitos sejam quais forem, mas plenas de metasignificados. Um dos grandes erros recorrentes no comportamento humano é a tendência a contestar conceitos sob o prisma de lógicas completamente direcionadas para outras facetas fenomenológicas do objeto, como por exemplo tentar explicar a beleza da flor baseando-se na impressão física que a refração da luz na composição molecular da planta provoca no nervo ocular. Ao fazer isso, matamos a flor em seu sentido pleno de beleza, e a definimos apenas sob a concretude da experiência ocular de perceber cores e formas.
É necessário desmontar a lógica de que a arte prescinde de uma prática contemplativa básica, e que ela se basta apenas ao ser realizada, sem mais proposições. Para realizarmos nossas metas de vida, precisamos desenvolver estratégias criativas e sensíveis, assumir uma posição atenta diante das necessidades. São tantas as nuances do comportamento humano, tantos os caminhos e teorias, que se torna muito difícil perceber onde está o meio-termo de tudo. Mas é justamente este meio-termo que precisamos exercitar cotidianamente. É claro que nenhuma forma de ação criativa será possível sem que tenhamos a coragem de experimentar, de aprofundar nosso olhar nas coisas, idéias e pessoas, constantemente avaliando as nossas intenções e lógicas.
Quando falo sobre o processo sutil de criação de arte como algo muito mais amplo e fundamental do que o meio artístico imagina, também falo da mente criativa como condição vital para todos. Em um ponto de nosso tempo de existência, precisaremos resgatar o estado de arte de nosso ser. Esta é uma questão muito importante, e mesmo que você não se imagine muito interessado nela, acredite-me, ela irá se apresentar à você queira ou não. Este conceito foi antecipado pela tradição Taoísta chinesa, e séculos depois passou quase que integralmente para a tradição Zen-Buddhista. Ele se fundamenta em uma proposta (não uma técnica, como poderíamos imaginar) de aprendizagem, quase um treinamento, sobre como um indivíduo pode captar os fatos – quaisquer que sejam – através de um olhar puramente fluido e criativo. Isso é possível de ser feito, e uma coisa completamente factível para toda pessoa disposta a participar conscientemente das suas ações e decisões na vida. É igualmente um compromisso com a existência, e depende demais de uma atitude contemplativa diante do mundo. A questão é: como podemos contemplar e viver ao mesmo tempo? Pois muitas vezes não temos tempo a perder com reflexões e ponderações: precisamos agir. É neste momento que a lição zen torna-se mais clara e útil: na verdade, o próprio viver é o ato de contemplar. Não existe separação, no plano da proposta consciencial, entre o refletir e o agir. Portanto, não se preocupe, ao viver contemplativamente você não deixará de agir e realizar coisas concretas, tomar suas decisões e sentir a brisa com prazer; você simplesmente fará tudo isso com fluidez de percepção e criativa sensibilidade.
Assim deve ser na Arte, assim deve ser na vida. Quando feitas através de uma clara compreensão de seus metasignificados, as ações são capazes de possuir uma poesia de gestos, pensamentos e palavras jamais imaginada. Esta é a arte além da Arte, o processo de criação sendo feito com força e determinação conscientes, plenamente desconstruídos em suas bases limitadoras e racionais.
Thursday, September 14, 2006
Desaprender - como prática para o conhecimento correto -
Tam Huyen Van
Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), certa vez recebeu um professor de universidade, um grande intelectual, que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso analítico sobre suas dúvidas.
Nan-In, enquanto o ouvia, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:
"Está muito cheio. Não cabe mais chá!"
"Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como eu posso lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"
Não é fácil adquirir conhecimentos. Apesar do fato de estarmos vivendo em um período no qual ocorre uma explosão de informações jamais vista na história da humanidade, ainda assim continuamos a observar que o conhecimento é um processo difícil e complexo de organização e elaboração interna de tudo que é adquirido através dos sentidos – falo dos sentidos e não do intelecto porque o conhecimento extrapola em muito o simples acúmulo de palavras ou fórmulas mentais. A revolução de informação em que vivemos criou um fenômeno que eu chamo de "conhecimento caótico". Após séculos onde o exercício do saber quase sempre se restringia a uma única base geral (cultural ou religiosa) de informação, estamos vivendo um período em que todas as informações são potencialmente (ou teoricamente) acessíveis e imediatas a todos em qualquer lugar do mundo, e justamente por serem tão acessíveis tornaram-se um amalgama caótico de dados que contribui em muito para um processo de sério anuviamento da compreensão adequada dos assuntos humanos pela mente.
Durante mais de dois mil anos (na verdade, por um período muito mais longo do que este se considerarmos de forma justa e abrangente todas as culturas mundiais e não apenas a cultura européia) os homens e mulheres conheciam o que sua comunidade imediata – e sua base religiosa fundamental – lhes impunha. A ignorância era uma condição associada à subordinação aos ditames do conhecimento traduzido pelos estudiosos, sacerdotes ou líderes, donos de uma experiência específica e baseada em suas próprias idiossincrasias – portanto, passíveis de forte limitação e engano.
Não penso que atualmente tenhamos superado completamente este processo de indução e manipulação que sempre ocorreu no passado, mas é inegável que foi aberta uma porta de acesso a informações alheias aos desejos e vontades das instituições estabelecidas, o que poderia permitir a um indivíduo sua liberação de certos níveis de imposição de conhecimentos relativos. De certa forma vivemos uma longa catarse após muito tempo de repressão intelectual, onde a explosão de opiniões, teorias e contra-teorias, críticas e elogios, análises e projeções, tornou-se lugar-comum no esforço humano para descobrir-se. O grande problema é que o homem não está realmente se liberando; ele está desta vez mergulhando em um novo tipo de ignorância e manipulação, ditados pela explosão caótica dos conceitos.
Como nós entendemos o conhecimento e seu mais valioso resultado, a sabedoria? Como você imagina ser a sua capacidade de conhecer e saber? Estas são questões muito importantes, a meu ver. Elas determinam o grau de compreensão que poderemos ter de nossas próprias potencialidades em relação ao nível de discernimento e atenção de nossa mente. E o primeiro passo para que o processo fenomenológico da consciência plena ocorra vem a ser justamente o Reconhecimento. Reconhecer nossa natureza interpretativa do mundo (e de nossa própria condição nele) é um movimento básico na prática contemplativa, é o primeiro passo. Sem isso, jamais saberemos a quantas anda nossa idéia de vida, nossa ótica perceptiva de tudo o que estamos aprendendo e apreendendo a partir de nossos sentidos.
O acúmulo de conhecimento – uma atitude aceita quase que universalmente na cultura moderna como sendo o meio mais óbvio para atingir os méritos da intelectualidade e da compreensão – sempre nos leva a uma sofisticação progressiva de nosso potencial cognitivo, mas jamais ao exercício de sabedoria. Esta é uma declaração aparentemente radical e pretensamente absoluta, eu sei, mas correta mesmo assim. Ninguém que seja adepto do método acumulativo de conhecimento atinge – ao fim e ao cabo de todo o seu esforço, suas cátedras, seus títulos ou sua grande inteligência aprimorada – a meta fundamental do esclarecimento iluminador dos caminhos do espírito. Uso o termo "espírito" não no sentido religioso ou doutrinário, mas no sentido íntimo de nossa percepção mais pura e sutil (oh sim, ela pode ser atingida!), e portanto desejo associar a experiência de esclarecimento à liberdade mental que eu freqüentemente faço alusão em meus ensaios.
Conheço vários exemplos, em minha vida, de pessoas que sob o acúmulo de conhecimentos tornou-se estranhamente incapaz de compreender. É interessante observar, sob o prisma da prática contemplativa, o quanto a completa falta de conhecimento e o grande acúmulo deste são, enfim, bases para as mesmas atitudes de anuviamento e falta de compreensão que dominam as ações humanas. São extremos e aparentemente opostos em todos os níveis de uma mesma linha de relação, mas no fundo compõem-se das mesmas bases mentais: a completa falta de flexibilidade perceptiva, o que leva a pessoa a um gravíssimo processo de cristalização intelectual, e profunda ignorância de si mesmo.
Mas esta minha linha de argumentação é alguma forma de crítica ao conhecimento profundo ou aos méritos dos estudos e pesquisas? De forma alguma, jamais imagino apresentar o conhecimento em si como fruto de ignorâncias ou um meio errado de buscar o desenvolvimento humano. Minha linha de argumentação direciona-se para o modo como interpretamos e organizamos, em nós mesmos, as informações que se nos apresentam a todo o momento e de uma forma cada vez mais assustadoramente intensa. Eu busco alertar para o fato de que a humanidade, em seu potencial intelectual e cognitivo, ainda não soube alinhar de forma saudável e realmente útil todas as descobertas sensíveis, mentais e filosóficas as quais fomentou ao longo de milênios de história; ainda nos falta um modo realmente consciente e fluido de relação com o conhecimento e seus desdobramentos.
Assim, existe uma proposta prática na tradição zen-buddhista que considero muito interessante e realmente inovadora: o desaprender. Eu já fiz alusão a este processo antes, mas acho importante elaborar melhor o conceito que, para muitas pessoas, pode soar muito polêmico e até mesmo perigoso – afinal, o que significa essa estória de desaprender? Devo jogar por terra todos os meus anos de estudo, devo menosprezar a gigantesca herança intelectual humana?
Na verdade, não. De forma alguma seria útil abandonar nosso conhecimento. Mas, sim, é imprescindível que saibamos depurar este conhecimento, e "polir" nossa mente daquilo que não apenas torna-se inútil e entulhado nela, mas tudo aquilo que contribui para realmente nos ocultar as sabedorias essenciais. Após anos de acúmulo intelectual, vivo um processo de "desaprender". Percebi que é fundamental para todo praticante contemplativo ou toda pessoa desejosa de seguir harmonicamente o ritmo da vida saber despojar-se de conhecimentos, para justamente poder adquirir sabedorias. A questão não é de renegar informações, ou tornar-se alienado delas; a questão não é ridicularizar estudos ou menosprezar análises. A grande questão na prática zen-buddhista é praticar o reconhecimento e a compreensão sutil da real natureza das informações, exercitar a simplicidade de percepção e fomentar em nós mesmos (e nos outros) a disposição de discernir mais do que apenas entender.
Isso, como sabemos, não é fácil. Temos um histórico cultural de culto ao conhecimento intenso, e para muitos de nós a compreensão resulta em um processo tipicamente cumulativo e técnico, organizado única e exclusivamente pela atuação racional e analítica. Toda argumentação que acene para outras opções de compreensão torna-se, no mínimo, tola. Mais do que isso, poucas pessoas aceitam o fato de que podemos praticar a compreensão do conhecimento através da consciência; a maioria apenas concebe o conhecimento como algo a ser absorvido e elaborado pela mente racional, e nunca vivenciado de forma um tanto vaga e indefinida pela mente contemplativa.
Contudo, existem meios extremamente saudáveis de elaboração e organização do conhecimento, os quais propõem uma abordagem perceptiva ampla e fluida que nos oferece o melhor possível entre a razão e a sensibilidade sem com isso cristalizar em nossa mente conceitos rígidos, fanatismos, idealismos racionais ou ignorâncias dogmáticas. Para acessar tal processo de conhecimento correto é preciso transformar nosso modo de aprender, de lidar com as novas informações – é preciso criar uma forma de epistemologia ainda mais renovadora do que jamais tem sido considerada. Quanto mais racionalizamos o conhecimento, tanto mais estaremos presos a uma mente cartesiana, limitada e – ao fim – ignorante. Eis porque eu afirmo as semelhanças entre os extremos da profunda falta de conhecimento e o grande excesso deste; entre pessoas simplórias e brutas e pessoas extremamente complexas e intelectualizadas.
O fato é que a ignorância não tem a ver diretamente com o conhecimento (ou falta dele), mas sim com a maneira como somos capazes de sofisticar saudavelmente a nossa compreensão e discernimento das coisas, e assim aprender a arte de conhecer corretamente. Toda pessoa capaz de praticar profundamente o discernimento e a compreensão em sua mente, independentemente de sua condição material, social, cultural, racial ou geográfica, será capaz de adquirir o conhecimento mais pleno, natural e saudável possível.
Por trás de todo o meu esforço em apresentar esta proposta contemplativa de correto conhecimento está minha constante surpresa em perceber como é difícil lidar com a intelectualidade e a percepção sob o prisma de uma proposta humana realmente sutil e sofisticada, sem os excessos mentais que caracterizam a falta de sabedoria. Considero que uma atenta e constante prática em desaprender aquilo que se torna desnecessariamente complexo, excessivo, em nossas mentes é uma profilaxia essencial para a saúde mental da humanidade.
Todas as misérias sociais, políticas e religiosas que tem assolado o mundo ao longo de milênios derivam invariavelmente de um modelo de aprendizagem e compreensão que prioriza o acúmulo – seja de forma analítica ou passional – de conhecimento em detrimento de uma prática mais plena do exercício de despojamento cognitivo.
Nós, seres humanos, ainda não conseguimos lidar adequadamente com o nosso potencial interpretativo e analítico. Oscilamos entre racionalismos frios e mecânicos ou metafísicas complexas e passionais, todos rigidamente presos às nossas idealizações – e às linguagens. O grande segredo que subjaz a prática do desaprender vem a ser o fato de que o conhecimento correto transcende a linguagem embora jamais a negue. O praticante do conhecimento adequado faz uso das várias facetas concretas de linguagem em muitos momentos, mas precisa vivenciar uma nova abordagem lingüística de forma a viver o processo de interpretação do conhecimento com fluidez. É o que eu denomino de aprender a linguagem do mundo, uma experiência de compreensão sutil que é a mais rica de todas, uma experiência de expansão e esclarecimento que está muito distante do simples exercício intelectual cumulativo de conhecimentos vários, mesmo que tal exercício seja elaboradíssimo e brilhantemente realizado.
A nossa xícara da mente está cheia demais. Devemos esvaziá-la de seus excessos com paciência e delicadeza, em gestos firmes e suaves como em uma cerimônia de Cha-no-yu, de forma a não desperdiçar a parcela do chá da sabedoria que – este sim – irá saciar nossa sede de conhecimentos corretos.
Conhecimento: chá demais para uma simples xícara. *****************
Sabedoria: na xícara da mente, chá bem servido.
Tam Huyen Van
Wednesday, September 06, 2006
Em papel branco traços negros desenham nome de Buddha.

© Tam Huyen Van
Tuesday, September 05, 2006
Enclausurada no círculo de nanquim -- mente vazia.

© Claudio Miklos (Tam Huyen Van) - 2004
Sunday, September 03, 2006
Dimensões Humanas
Tam Huyen Van – Setembro, 2006
Mestre Tokusan (742-865) estava sentado em zazen à beira do rio. Avizinhando-se da margem, um discípulo gritou-lhe: - Bom dia, mestre! Como estais? Tokusan interrompeu o zazen e, com o leque, fez sinal ao discípulo: "Vem, vem . . . !" Levantou-se, deu meia-volta e pôs-se a ladear o rio, seguindo o curso da água.
O discípulo, nesse instante, experimentou o Satori.
O debate sobre quais são os reais aspectos que definiriam a natureza intrínseca da mente tem sido cada vez mais abordado por vários tipos de estudiosos e pensadores. Dentro desta perspectiva, há um foco de estudo que particularmente me chama a atenção e ao qual dou muita importância: a questão associada à experiência puramente (mas jamais simplesmente) sensível em contraponto aos processos do intelecto lógico. Razão e sensibilidade, dois aspectos interessantes inseridos no contexto sutil e complexo das experiências da mente, e que hoje – vividos sempre em seus extremos fins e nunca em seus mais saudáveis meios – determinam todas as formas de conflito.
Na verdade nenhuma forma de percepção pode ser considerada como possível ou acessível além dos limites do eu – falo neste caso do "eu" menor e não do conceito pretensamente absoluto do Eu – sem que com isso corramos o risco de criar uma premissa dissociativa e algo estéril, embora evidentemente muitos pensadores talentosos (notoriamente analíticos em sua grande maioria) tenham desenvolvido alguns sistemas muito coerentes sobre o tema – coerentes, bem entendido, dentro dos próprios limites das suas especulações. Para que possamos compreender o papel da percepção além dos limites do eu, seria necessário um estudo prático muito profundo direcionado não às nuances da linguagem ou do intelecto, mas de uma outra classe de experiências, notadamente pouco associada aos ditames da mente comum. Tal estudo tem sido feito, evidentemente, mas ainda não foi possível realiza-lo sob as bases de uma ampla revolução perceptiva.
Muito ao contrário, atualmente eu detecto um esforço em criar um cenário lógico repressor que seja capaz de racionalizar – eficiente e incontestavelmente – os processos criativos e perceptivos de forma a retirar das ações qualquer resquício de consciência mais abrangente e voltada para novas possibilidades sociais, políticas e culturais, concedendo àquelas ações no máximo o mérito de serem realizadas sob o prisma de uma necessidade momentânea e condicional – e portanto justificando até mesmo as doutrinas mais cruéis e destruidoras.
É a forma mais usada para atingir uma idéia próxima da transpessoalidade sem obrigar a humanidade a cair naquilo que normalmente é considerado como um lodaçal místico (ou romântico) sem nenhum sentido ou utilidade: o ideal da paz e equilíbrio realmente consciente, o caminho para a felicidade; nada mais equivocado do que associar tais metas a misticismos ou tolices românticas. É a forma de iludir-nos com uma pretensa revolução de conceitos ou organização humana, mas sem que nada disso aconteça realmente; isto é um grave processo de ilusão e castração, e tem produzido um momento social e político mundial assustadoramente egoísta e manipulador.
Considero que três nichos humanos apresentam campos férteis para o desenvolvimento de teorias da percepção: a Arte, a Espiritualidade (entendo por "espiritualidade" o complexo contemplativo e reflexivo simbólico humano em todo o seu espectro – mas não associo o termo neste artigo às instituições religiosas em si, quaisquer que sejam) e a Filosofia (entendendo-se por filosofia também o próprio método científico e analítico, herdeiro das muitas escolas filosóficas gregas de cunho naturalista e racional).
Não pretendo absolutamente afirmar que estes nichos sejam semelhantes em natureza e resultados, mas creio poder afirmar que estes três aspectos do fenômeno cultural humano abrigam em si as bases cruciais do que eu denomino "ontologia essencial", e neles temos representados – em minha opinião – os modos perceptivos mais fundamentais e irredutíveis da mente humana, a saber e respectivamente: o modo estético/sutil, o modo ético/moral e o modo cognitivo/científico.
Contudo, estes três universos possuem muitas nuances e características; sofreram, sofrem e ainda sofrerão muito com as mudanças do tempo e com as alterações de perspectivas sócio-culturais. Em todos os casos costumamos testemunhar embates terríveis entre os posicionamentos ortodoxos e radicais por um lado, ou românticos e casuais por outro. Igualmente, nos três casos tenho visto exemplos cabais dos embates entre os adeptos da razão e os da sensibilidade ao longo de toda a história humana, e frequentemente tais embates resultam em ódios, desprezos e graves desvínculos com descobertas salutares e libertárias.
Esta é realmente uma grande ironia: a busca da liberdade humana se dá freqüentemente no âmbito da arte, da espiritualidade e da filosofia, e no entanto é justamente através das diversas interpretações e idiossincrasias nas artes, filosofia ou espiritualidade que a humanidade tende a sucumbir às prisões do intelecto ou do coração.
Quais são as verdadeiras dimensões humanas? Até onde podemos ir sem cair nas armadilhas da mente limitada e ao mesmo tempo limitadora, que nos impõe muitas realidades e pontos-de-vista que invariavelmente nos deixa por demais perdidos em certezas e absolutos? A prática humana para o correto desenvolvimento da consciência precisa forçosamente passar pela busca por novos meios de superar a tendência viciosa da mente em cair nos extremos. Ao mesmo tempo, jamais o buscador pode permitir-se abandonar nem a sutileza, nem a coerência. Diante das questões cotidianas e banais, mesmo que estas pareçam nos arrastar para a futilidade e alienação, devemos exercitar uma visão cuidadosa e fluida de modo a poder compreender a linguagem essencial das coisas.
E esta é a meta última daqueles três modos mentais: todos pretendem nos levar de algum modo a criar uma estrutura de compreensão do mundo que seja adequada e coerente. O problema é que nossa mente está por demais condicionada para perceber que em algum ponto do caminho, nos perdemos e finalmente chegamos a conclusões extremamente egoístas e repressoras. A cegueira da humanidade diante de sua própria falta de consciência é o que permite gerar todos os sofrimentos do mundo; a caixa de Pandora da humanidade foi forjada na ignorância do Ser, e se abre toda vez que as mentes sucumbem à auto-indulgência, arrogância ou conceitos distorcidos. A caixa de Pandora, afinal, é a ilusão de que possuímos verdades absolutas, e também a ilusão que alimenta as mentes preconceituosas e frustradas em seus ódios, delusões racionais e fanatismos. E são mentes deste tipo (triste constatação) que têm dominado o mundo por muitos milênios.
Será possível haver um meio-caminho entre a razão e a sensibilidade, de modo a permitir que a expressão de nossas vontades seja saudável e construtiva? Sim, penso que certamente isso é possível, e não imagino tal feito sob a ótica do misticismo ou dos grandes feitos intelectuais. Imagino atingir este ponto de equilíbrio através do exercício constante de meu discernimento e compreensão, sem exageros. Além disso, penso que a correta expressão da arte, espiritualidade e da filosofia em nós mesmos sob o prisma das descobertas contemplativas e não dos métodos, regras ou modelos criados ao longo de milênios de racionalismos institucionais ou misticismos românticos, irá eventualmente conduzir as mentes a uma grande revolução interior, e ao mais belo esclarecimento possível: aquele que abre nossas mentes para o vôo suave entre as realidades existenciais, deixando-nos aptos a vivenciar o mundo com prazer e profundidade.
Esta revolução pessoal é possível – como sempre nos apresenta a tradição Zen-Buddhista – AGORA, e em nenhum outro momento (na verdade, no fundo sabemos que não existe outro momento, não é mesmo?). A despeito de tudo o que fomenta as misérias humanas, e apesar do tanto de intelectualismo ou fanatismo que a humanidade tem gestado em si mesma (e por si mesma) em toda a sua história, acredito poder discernir uma solução possível. Esta solução já foi apresentada antes, e na realidade está disponível a todo instante. É uma medicina fácil e muito simples de ser produzida e ministrada. Mas não é um remédio agradável para todos – ou de efeitos coletivos. Ela é única e voltada para nós mesmos, e depende da força e honestidade de nossa busca interior.
A solução revolucionária da mente livre deve ser ministrada através de nossos espíritos, e graças ao nosso esforço em reconhece-la como possível e viável. Desta forma ela será realizada plenamente, e uma extraordinária experiência de alma é atingida. Cada indivíduo que lograr fazer de si mesmo alguém onde a razão e a sensibilidade se manifestam sem extremos, será mais um que abandona o terrível inferno das vontades em conflito que hoje dominam tantas mentes e provocam tantas decisões ignorantes, e dará o primeiro passo em direção ao mérito de compor o mais pleno, saudável e completo conceito de humanidade possível de ser concebido.
Venha, dê este passo. Tenha a coragem de viver a única revolução viável para a condição humana: a revolução da Plena Consciência. Liberte a sua mente.
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